ISLÃ
Carmen Lícia Palazzo
O Islã é uma religião cuja origem remonta ao século VII, com o seu surgimento na Península Arábica entre grupos que se organizavam majoritariamente de maneira tribal, sem qualquer tipo de centralização política. Conhecida, junto com o Cristianismo e o Judaísmo, como uma das chamadas “três religiões do Livro”, tem como texto sagrado o Alcorão, ou Corão, cujo teor é considerado pelos muçulmanos como a palavra divina, ditada diretamente a Maomé no decorrer de um período de vinte e três anos, a partir de 610.
O calendário muçulmano não corresponde ao gregoriano. A data estabelecida como seu marco inicial para o ano 1 é 622, quando Maomé, tido como o último dos Profetas e mensageiro de Deus, deixou Meca, sua cidade natal, onde enfrentava a animosidade de algumas tribos e das autoridades locais, e foi para Medina. Tal deslocamento passou, então, a ser conhecido pela palavra árabe Hijrah, que pode ser traduzida como migração.
Quando o Profeta morreu, no ano de 632, grande parte das tribos árabes já estava unificada e a nova religião foi justamente o elemento que soldou a unidade na Península, levando também a expansão do poder árabe para grande parte do Oriente Médio e do norte da África. A sucessão de Maomé ocasionou disputas dentro da comunidade (umma) de seus seguidores, conduzindo a um rompimento radical. De um lado, estavam os que acreditavam que o novo líder deveria ser escolhido entre os seguidores da tradição (sunna), mas não necessariamente descendentes de Maomé e, de outro, aqueles que, sendo partidários de Ali (xiit’Ali), primo e genro de Maomé, defendiam o direito à sucessão apenas dentro da descendência familiar.
Após inúmeras desavenças e disputas, ocorreu um grande confronto e uma violenta batalha em Karbala, no ano de 681, na qual Husayn, filho de Ali que estava sendo preparado para a função de califa (sucessor de Maomé), foi morto juntamente com diversos companheiros e membros de sua família. Estava selado, então, o rompimento definitivo entre os chamados sunitas, conhecidos como “o povo da tradição” e os xiitas, “partidários de Ali” e da sucessão na linhagem da família do Profeta. Esta foi a maior fratura no interior do Islã que, posteriormente, teve outras ramificações, porém de menor amplitude.[1]
Religiosidade de caráter expansionista, o Islã se desenvolveu conquistando grande parte do território do Oriente Médio e também de algumas sociedades africanas. Entre os africanos islamizados estavam diversos grupos de sudaneses que, bem mais adiante, já na Idade Moderna, seriam alvo do tráfico de escravos para o Brasil. Muitos deles passaram à história do período colonial em virtude da chamada “revolta dos Malês”, um levante de escravos ocorrido na Bahia, em 1835.
O historiador brasileiro João José Reis, em seu livro Rebelião Escrava no Brasil e História do Levante dos Malês em 1835 [2],analisa a presença do Islã entre os escravos esclarecendo, no capítulo intitulado “Os filhos de Alá na Bahia”, que embora não se constituísse em maioria entre os escravos, os muçulmanos não eram um número pouco significativo. Ainda de acordo com Reis, desenvolveu-se em Salvador um proselitismo visando converter outros escravos e também africanos libertos, estimulados pelos que chegavam de regiões muçulmanas da África. Muitos daqueles que viviam na Bahia aprendiam até mesmo um pouco de árabe com os recém chegados, para ler e escrever pequenas passagens do Alcorão.[3]
Com a derrota da revolta e o grande desenvolvimento da religiosidade animista de culto aos Orixás, o Islã foi desaparecendo entre as populações africanas do Brasil. Continuou a se difundir, no entanto, por algum tempo, o uso de amuletos que faziam parte das práticas de sociedades islamizadas no continente africano. Em seguida, porém, na Bahia os comportamentos dominantes passaram a ser marcadamente os sincréticos. Associavam-se cada vez mais as manifestações do catolicismo com o candomblé, que se tornava majoritário entre os escravos ainda em cativeiro e entre os libertos.
Ainda no período colonial havia no Brasil, entre os degredados do reino português, muçulmanos, bem como judeus e outros enviados para as terras de além mar por serem considerados heréticos e, portanto, passíveis de punições diversas. A pena de degredo lhes era infligida, nestes casos, com frequência[4]. Alguns comerciantes seguidores do Islã também instalaram-se livremente nas terras conquistadas por Portugal, mas acabaram diluindo-se no conjunto da população. Certamente todos eles mantinham baixa visibilidade e não tinham nenhum interesse em se apresentar como não cristãos por temor da Inquisição, que permanecia bastante atuante. Não há, portanto, estatísticas que possam ser consideradas confiáveis sobre a presença de muçulmanos no Brasil Colônia.
Bem mais adiante, já no final do século XIX, o Império brasileiro recebeu, entre outros, um contingente de imigrantes originários do Oriente Médio, predominantemente composto de cristãos sírios e libaneses. Só no século XX é que a imigração de muçulmanos para o Brasil tornou-se mais significativa. Com a expansão do colonialismo imperialista da França e da Inglaterra, tanto no Oriente Médio, quanto no norte da África, e com uma crise econômica em toda a região, aumentou o interesse pela imigração.
O Brasil foi visto pelos muçulmanos como um destino que lhes poderia ser favorável, pois era sabido que encontrariam, no país, expressivas comunidades de fala árabe já bem adaptadas desde o final do século XIX, ainda que fossem de fé cristã. Não há igualmente estatísticas abrangentes e totalmente acuradas sobre a religiosidade daqueles que entravam no Brasil como imigrantes. Os dados são esparsos e de registro irregular. Sabe-se, porém, que no ano de 1928 a cidade de São Paulo passou a sediar a primeira Sociedade Beneficente Muçulmana do Brasil.[5]
O antropólogo Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto informa que, entre 1908 e 1941, 65% dos sírio-libaneses que desembarcaram em São Paulo, no porto de Santos, eram maronitas, melquitas e católicos romanos. Dos restantes, 20% era cristãos ortodoxos e apenas 15 %, muçulmanos[6]. O censo mais recente no qual é explicitada a filiação religiosa da população brasileira é o de 2010 e, de acordo com ele, o país teria um total de 35 167 muçulmanos.[7] Este dado, no entanto, tem sido contestado pelas associações islâmicas e mesquitas, que o consideram muito inferior à realidade de acordo com as avaliações de frequência às suas atividades.
A FAMBRAS, Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, fundada em 1979, tem uma estimativa própria relativa ao número de muçulmanos morando no Brasil e que ficaria entre 800 mil e 1,2 milhão no ano de 2015. A maioria deles pertence ao grupo sunita, porém com um número significativo de xiitas (ainda que também sem dados numéricos confiáveis)[8]. É consenso entre grande parte dos pesquisadores sobre o tema que as estatísticas referentes ao número de muçulmanos residentes no Brasil são bastante falhas, fato confirmado pelo Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor [9].
A imigração xiita para o Brasil intensificou-se muito durante a Guerra Civil do Líbano, entre os anos de 1975 e 1990. Em 1977 foi construída em Curitiba, no estado do Paraná, uma mesquita que era inicialmente sunita mas que, em 1986, passou a ter como sheik (pessoa que dirige as orações e organiza os eventos religiosas dos muçulmanos) um xiita. No mihrab (nicho de oração que indica a direção na qual se encontra a cidade sagrada de Meca) da referida mesquita, decorado em estilo persa, pode-se ler que ele foi doado pelo governo do Irã, em 1996. Trata-se porém de um local frequentado por muçulmanos de ambas as comunidades, tanto sunita quanto xiita[10].
A guerra civil na Síria e o acirramento dos conflitos em territórios palestinos e israelenses motivaram também o crescimento da emigração oriunda daquela região. O próximo censo do IBGE, que deverá ser realizado no ano de 2020, certamente refletirá o aumento do número de muçulmanos vivendo em território brasileiro. No entanto, nem todos os seguidores do Islã no Brasil são originários de países árabes ou africanos e nem mesmo imigrantes ou descendentes de imigrantes. Muitos deles são brasileiros convertidos ou, como dizem alguns praticantes do Islã, “revertidos”.
A adoção da palavra “revertido” deve-se ao fato de que muitos muçulmanos consideram que não há exatamente uma conversão, mas um “retorno” ao que se constituiria no estado natural de todos os seres humanos ao nascer. Não existe, porém, mesmo entre as autoridades islâmicas, um consenso sobre qual a palavra mais adequada para designar aqueles que, tendo sido anteriormente praticantes de outra religião, ou ateus e agnósticos, passem a adotar o Islã. Os estudiosos do tema também estão divididos quanto ao uso das palavras “conversão” ou “reversão” [11].
No interior das comunidades de muçulmanos do Brasil que possuem considerável número de membros que não têm origem étnica árabe, coloca-se a questão do idioma já que, em geral, nas mesquitas a leitura do Alcorão e mesmo as predicações são tradicionalmente realizadas em árabe. Como solução, cada centro tem liberdade para decidir pelo que acha mais compatível com os seus frequentadores. Em alguns casos são realizados resumos em português e, em outros, uma tradução oral logo após o que é dito em árabe. Há também o uso de tradução simultânea, como ocorre em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, onde são disponibilizados fones de ouvido para os interessados, para que acompanhem a pessoa que realiza a tradução.[12]
Ainda que se possa dizer que os muçulmanos no Brasil pertençam às duas maiores vertentes do Islã, sunita e xiita, cabe destacar que, mais recentemente, em virtude do acirramento da guerra civil na Síria e de suas consequências para a população, aumentou a imigração dos alauítas. Considerados como pertencentes ao xiismo, sua filiação é muitas vezes contestada por outros muçulmanos, já que suas crenças e práticas distinguem-se, em vários aspectos, do corpo principal do Islã.
Igualmente no caso dos alauítas, não há dados estatísticos precisos que permitam, no momento, uma avaliação consistente de sua presença numérica no país. Não se trata, porém, de um grupo novo entre os imigrantes, ainda que atualmente tenha crescido sua imigração para o Brasil. É interessante lembrar que no Rio de Janeiro, no ano de 1931, havia muitos alauítas trabalhando no comércio. Foi, então, fundada a Sociedade Beneficente Alauíta, que congregava os imigrantes realizando festas diversas e cerimônias religiosas, durante muito tempo nas casas de seus associados e, só a partir do ano de 1958, com uma sede própria no bairro da Tijuca. A sociedade manteve, também, estreito relacionamento com cristãos sírios e libaneses que tinham emigrado e até mesmo com as autoridades diplomáticas do Oriente Médio no Brasil.[13].
Os alauítas têm feito sempre um esforço considerável para manter o idioma árabe e para transmiti-lo às novas gerações, pois o grupo se identifica não apenas com a umma muçulmana (comunidade de fiéis que transcende as nações), mas também, e particularmente, com a Síria enquanto pátria, em função de toda a sua história. A reivindicação nacionalista é, assim, associada ao pertencimento religioso, ainda que, teoricamente, o Islã seja uma religião de caráter universal.
São Paulo é o estado brasileiro que apresenta o maior número de muçulmanos. De acordo com o censo de 2010, eles seriam 14. 778, em todo o estado, seguindo-se o Paraná, com 8. 706 muçulmanos no total de habitantes. No entanto, proporcionalmente ao conjunto da população, o Paraná tinha, naquele mesmo ano, 834 muçulmanos para cada 1 milhão de habitantes, e São Paulo 358 muçulmanos, também para cada 1 milhão de habitantes. É importante ressaltar, porém, que estes são dados atualmente bastante defasados em virtude do recente crescimento da imigração, crescimento este que deverá ficar mais evidente no próximo censo de 2020. Saliente-se também que não existe um levantamento estatístico confiável que dê informações consistentes sobre o número de sunitas e de xiitas, separadamente.
O desenvolvimento, em diversas cidades do Brasil, de centros culturais nos quais é ensinado o idioma árabe e o interesse de brasileiros não muçulmanos pelo seu aprendizado, no bojo da divulgação de outras manifestações artísticas e gastronômicas relativas ao Oriente Médio, tem sido um fator que dá maior visibilidade também para a religião. O Islã vai se tornando, assim, bastante conhecido entre os brasileiros e cresce o número de convertidos sem relação com os movimentos migratórios.
[1] Para uma história mais detalhada do Islã, ver: DONNER, Fred M. “Modern approaches to early Islamic history”. In Chase F. Robinson, The New Cambridge History of Islam, v. 1: The Formation of the Islamic World, Sixth to Eleventh Centuries, Cambridge University Press, 2010, p. 625-47.
[2] REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil e História do Levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. (Edição revisada e ampliada).
[3] Idem, ibidem, p. 158-159 e 215.
[4] Sobre os degredados, ver PIERONI, Geraldo. Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
[5] RIBEIRO, Lídice M.P. “A implantação e o crescimento do Islã no Brasil.” In Estudos de Religião, v. 26, n. 43, p. 118.
[6] PINTO, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. “Toda forma de fé.” Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 4, nº 46, julho, 2009, p. 25.
[7] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Para os dados do censo de 2010: www.ibge.gov.br/censo/censo2010.
[8] Dados fornecidos em diversas oportunidades pela FAMBRAS, Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, com sede em São Paulo.
[9] https://www.state.gov/j/drl/rls/irf2009/127381.htm. Acessado em 30 de maio de 2018.
[10] PINTO, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. “Ritual, etnicidade e identidade religiosa nas comunidades muçulmanas do Brasil.” Revista USP, São Paulo, n. 67, set./nov. 2005, p. 235.
[11] <hamzaabdullah357.blogspot.com.br>. Acessado em 30 de maio de 2018.
[12] SENA, Edmar Avelar de. “O islã no Brasil: malês e ‘árabes’, dois momentos da presence muçulmana no contexto brasileiro”. Horizonte. Belo Horizonte, v. 13, n. 38, abr./jun. 2015, p. 829-861.
[13] OMRAN, Muna. “O discurso religioso da preservação identitária nas comunidades muçulmanas alauítas do Brasil.”In Espaço e Cultura, n. 37, jan./jun. 2015, p. 54-76.
